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Cerveja é droga?
Marcos Mesquita*
Temos acompanhado com atenção e
certa preocupação as matérias veiculadas
na grande imprensa que tratam a cerveja, uma das bebidas de menor
teor alcoólico, como droga. A maioria das reportagens insiste
em criar uma lógica que é um bom exemplo de silogismo.
Senão vejamos: É preciso combater as drogas; Álcool
é Droga; Cerveja é Álcool; É Preciso
Combater a Cerveja.
De onde provém essa falsa lógica?
Possivelmente de uma definição bastante ampla adotada
por cientistas e extraída, por exemplo, de trabalhos publicados
pelo CEBRID* que define droga como "toda e qualquer substância
capaz de modificar a função de organismos vivos,
resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento".
Um leitor atento pode perceber, também,
no mesmo estudo, que a definição da Organização
Mundial da Saúde(OMS), de 1981, é bem mais restrita.
Segundo a instituição, droga é "qualquer
substância química ou mistura de substâncias
(mas outras que não aquelas necessárias para a manutenção
da saúde, como por exemplo, água e oxigênio),
que alteram a função biológica e possivelmente
a sua estrutura".
É fundamental lembrar às pessoas
que comparam cerveja à droga de que a cerveja produzida
no Brasil é composta de 92% de água, 4% de carboidratos
e 4% de álcool e seus benefícios à saúde
podem ser verificados no texto Cerveja
e Saúde neste mesmo site. Outra constatação
é que a imensa maioria de consumidores que bebe cerveja
o faz de forma moderada e responsável.
Os riscos e as conseqüências da generalização
são conhecidos e vivem assaltando os responsáveis
por algumas das leis que regulam nossa vida em sociedade. Imagine
o leitor se fosse criada no Brasil uma lei que limitasse a velocidade
de todos os meios de transporte, como medida preventiva de segurança
nas cidades e estradas, sem que houvesse distinção
entre um ônibus e uma bicicleta ou mesmo um patinete. Todos
deveriam submeter-se às mesmas regras. Então, diriam
os mesmos sábios: "Patinete e ônibus são
meios de transporte".
Com essa comparação irônica
não quereremos dizer que os problemas não existem
e muito menos que devemos fazer vistas grossas aos mesmos. Acreditamos
que todas as causas e conseqüências do abuso de bebidas
alcoólicas devem merecer atenção tanto do
governo como da sociedade. No entanto, acreditamos também
que o país não precisa de novas leis que tratem
com mais rigor o consumo prematuro de bebidas alcoólicas
por adolescentes, pois o código penal já prevê
sanção para quem serve bebidas alcoólicas
para menores de idade.
Precisamos sim instrumentalizar o Estado de meios
eficientes para coibir o que a Lei já pune e, mais do que
isso, necessitamos de ações educacionais que avancem
até nossos lares. É nesse ambiente que elas devem
estar presentes e potencializadas. O uso abusivo e prematuro de
bebidas alcoólicas deve ser tratado com rigor, porém
sem perder de vista que é uma exceção e,
como tal, deve ser tratada. Políticas públicas de
efeito genérico, quando usadas para a prevenção
de problemas localizados, desperdiçam recursos e trazem
resultados pífios. Um dos pontos principais para uma ação
com resultados eficientes é, sem dúvida, evitarmos
as generalizações. Assim, nos permitimos concluir
que cerveja é bebida alcoólica, mas não é
droga.
(*) IV Levantamento sobre o Uso de Drogas entre Estudantes de
1º e 2º graus em 10 Capitais Brasileiras , pag 127,
editado pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre
Drogas Psicotrópicas - CEBRID - 1997.
* Marcos Mesquita é superintendente do Sindicerv
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